Por um fio
O trem passa, isso que digo. Não tem de passageiro nem para Rio Branco, o político tirou do povo esse direito. Mas é o que se diz. Trem passa. É como as estações. Estaciona ali um certo jeito de viver, depois muda. Passa.
A vida por um fio, emperrada à faca. A gaveta da cozinha, fecha. Não atrai. Disse outra vez, repito para que não jogue o sangue fora, guarde a hora, e viva. Alma de guardados, Pense, dizia, lembra bem, se morre hoje; quantas vezes amanhã. Pense. E mais a mais
isso passa. O mal vai encontrar por esta estrada. Vamos a pé. Ela disse luzindo
a face de aço. Completou num espasmo:
No fim...
E caindo o peso. Cortou o ar em pedaço.s
Ninguém tem culpa. Ele atravessou os olhos
da janela
em cacos faiscantes
Via algo que o desesperava. Trincou os dentes. É tarde. O carro novo
em folha na garagem, tanta bobagem. Estamos presos. Desse jeito que é. E me telefona ao invés de enviar recado. Nada mais
que isso.
Suspirou, aposto.
Fosse um. Há tantos como chapinha de garrafa. Apenas um. Li isso. Está certo. Não precisa. Como que tirar um olho e o devente continuar vivo. Deixa lá. Seguindo o escrito. Seja mais a pasta de dente na boca, abrasivo e conclusivo:
Dois! Entendi. Sabe que são mais. Assim, desvia o teu coração da ponta do aço. Morrer desse jeito dói. Telefonou para a sua mãe? Eu a via na banca de tomates outro dia. Olha não dá para sair por aí matando bandido. Acaba igual a eles. Morre não.
Sai de casa, anda arrastando os pés, afunda na terra o pensamento. Sei que chacoalhou
o puxador com
violência. Andou se trancando, indo para a biblioteca outra vez. Faz uma comidinha leve, anda no jardim. Joga pedra na parede. A gente quer se devorar, sei disso. Talheres que dentro tremem, fazem algazarra, gritam metálicos.
Vai lá e me diga. Não demora nas palavras, escrevo por causa disso. Não atende. Aposto que a campainha toca e você nem vê o que devia ouvir.
Teve um mal no mercado, outro dia. Correria feia. Ouvi um pequeno estalando no teto. Olha que foi gente derrubando gente, que nem fora, na vida. Elas se esmagavam voando para a rua. Aquilo fervia.
Não podia sair. Nem ficar. O que fazer? Vi a coisa se movendo no fundo, entrou na casa de carne e pegou uma afiada. Ele vem para cima de mim. Para onde ir? Ora,
pneu furou chama um táxi, aprendi isso. O seguro
uber. É brincadeira, trepei nas prateleiras, me enfiei nos enlatados. Passou rente, bufando com o brilho nas mãos. Quieto. Deixei seguir. Só de encostar cai um corpo. Fiquei pensando. Anda aborrecido por causa da gente ruim. Sei que saí de costas, fui vendo onde o perigo se mexia, quando vi, escapei, estava do outro lado da calçada.
A vida é assim. A gente tem que se esconder da gente. Nã sai em disparada, vai de leve, mas no peso, medindo bem onde pisa. Faz isso contigo não. Logo vem nos visitar e vamos tocar umas ampolas, provar essas amarelas ferventes que temos por aqui, e geladas. E sabe. Mexeu contigo, senta a mão. Canivete não matar, traça a carne, faz o risco, mal não causa. Conforme, se for pequeno de picar fumo, pequeno de tirar lama da unha. E no fim, usa isso não. Dá um problema. Tenta achar das ventas um jeito melhor. Você nunca foi miúdo, sempre foi maior. Então. Arruma uma calma, vai lá, e resolve sem tiro. Entende? Cuida de ti. Deita na relva, molha o pé na bacia. Bate na cara do vizinho
ele tem um carro
igual. É muito engraçado isso. O cara foi e matou, o que não tem nada de engraçado, essa coisa foi. Matou um tal porque o sujeito tinha uma lata igual a dele. Gente, vamos cortar grama, isso não é normal. Se mate. Um ódio da vida. Deus cansaço da vida. Meu Deus, você é jovem, uma juventude que vai até ao fim da vida, e isso ninguém tem. Meu Deus. É um aviso.
Ponha chave
na gaveta da cozinha. Vai dizer que é um cofre. É ou não é? É.
Eu vou ter um troço, pode pensar, pode dizer, vai comer com as mãos. E o que guardamos aí que tem chave?
Nada demais, a vida. Apenas vida. Está bom? Come couve, bebe chá de alecrim, passa um tempo com a mulher que gosta, diz para ela umas palavras boas. Sabe que volta. Joga umas palavras para o nosso senhor Jesus, ele devolve. Tudo bem, tempestade também cai na casa do freguês. Pega da baleeira e põe na cicatriz, joga no feijão. Não morre, vai carpir um terreno. Fuma salvia. Aquece um pouco mais o banho e joga chá de guiné. Põe arruda em toda casa, defuma, tira rato, mata inseto, planta flor. Fa qualquer coisa, e não se mata.
Promete? Não tenho hora por agora, mas logo que der, que não demora, vou te visitar, levar um pão assado para a gente tomar com o café daqui. Tá bom, se cuida.
Pedro Moreira Nt

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