Fechamento


Morra agora toda tentativa 

de tirar de mim

o meu sol

Não vale nada a calha

que jorra minhas

lágrimas 


Esse barco

encerra todo o amanhã 

Se há algum bem

no coração desafortunado 

é o luto

não cabem lembranças


O grito se precipita

no raso refúgio da lógica 

Pintem santos com

o ocre sangue 

coagulado das possibilidades 

perdidas

Estrelas do crime

amantes do assassinato


Agora ouço a boca fechada 

de sua voz

O cheiro pútrido das amarras 

que laceram sua existência 


Parte sem asceno no cais

o lenço à boca não se move

As mãos amarradas 


O estigma de sua canção 

jamais ouvida 

Morre nesse abjeto instante


Prendam o dia seguinte 

com esse momento

Chamem o carcereiro


Essa perda 

a dor sem encanto

sem motivo 

de um riso

Lua enfumaçada 

o andor sem carne 

nesse férito 

Supurada corte


Dano sem dono 

o mal ativo

alegre e cheio de contentamento

abraçado aos pequenos valores

que enche o banco onde se assenta


Se vida o vejo

não haverá

a partir de hoje

algum sentido de haver colinas

apenas o profundo esquecimento

do que não pode ser conhecido


Deixem o ar oleoso com a pestilência

da alma estagnada

Atravessem as fronteiras

nuas almas penadas


Sufocado e sem ar

ninguém o salvará de seu destino

Vento algum entra em sua casa fechada

apenas sinos nas asas


Matem os pássaros

Eliminem as flores desse quintal

e vendam metais

comam ferros

ganhem o cobre com as feridas na pele


É o fechamento

o carimbo burocrático do domínio

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Pedro Moreira Nt



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