Lamento para o dia de hoje

 




Gente e chuva. Briga na rua. Andei até o café, gritos na pia. Voz de canto, sangue da torneira, uivo transparente. Panos em tudo, feio. Cedo demais, muito ainda. Varreção e tormento. Dedos cortados apontavam a poeira. Levavam o lixo de mãos dadas. Entrei de levante. Calor de brasas, suor no ar.

Veio quem atava os mantimentos. Rosnou os dentes. Fez três movimentos. Puxei a cadeira, arrumei o caminho e me deixei. Um sino conhecido. Olhos profundos. Esperei o julgamento. A bandeja conversava. Seguida retomou. Ia fazer, dizer algo, parou de soslaio algum ressentimento.

De fora corria levadas conversas, entrava da porta almas de chumbo. Uma nesga no jeito e no acento passava. Sombras. Debati a colher. Pão frito. Pé-de-vento. Chama um nome. Zunia a prata, cheiro de vinagre e fermento. 

Morria, migalhas no tabuleiro. Parecia um tiro a carta gretada dos olhos, ficou de lágrima assustada, denso óleo do ar pesado. Rasguei o trigo, cuidei do sentimento. Deixei uma pressa, fiquei de esquecimento. O vulto ardia, prometia o que não cumpria.

Logo, antes de erguer o corpo, fez de espanto. Acendeu alguma vontade. E veio inflamado. Voltou um gesto tresloucado, recebi o insulto. Papel amassado, letra de números. Rezava dinheiro. Passei a nota. Dei meus passos. Senti um risco na garganta. Era obrigado que estilhaçava. 

Marchei lento. Todo sem sentido se mexia, almas penadas. A viela mal cuidada. Sem nada se reuniam, e se despendiam raspando cimento. Agouro e tristeza nos risos. Palavras sufocadas. Caía às vezes daquelas carnes um barulho de latas. Se amontoavam e desapareciam.

Passavam desperdício de álcool nas quinas. Juntavam coisas abandonadas. Subi a rampa. Conheci portas rangendo. Babas de unguento. Um soco de cumprimento. Algum roncava algo de dentro de uma tina, o som de si mesmo.

Apertavam rosmarino, punham chumaços de folhas atacadas em vasos, queimavam capim seco, deitavam estranhas repetições que versavam respostas num ritmo de lago. Mandavam entrar os pequenos apavorados. Rugiam algum lamento. Arrastavam galhos. Se mantinham sem porque estavam.

Logo vi a chegada. Apertei os sapatos. Deparei com um grupo, traziam numa caixa enfeitada de fitas cansadas um crucifixo. Atendi o pedido, contaram, franziram o cenho e se foram como chegaram.

Toquei campainha para mim mesmo e me atendi para dentro. O que era ontem estava distendido. Lembrei do silêncio. Acendi as velas. Começava o Advento. 


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