Testemunhas invisíveis
(eu vi o que fez, vi a estupidez)
Assista esse silêncio, veja o som dessa imagem, e desista das certezas, são chatas.
A sorte de abrir uma lata de conserva sem se machucar não pertence à marca e nem à patente. Isso é uma questão de sangue e privada.
Seja fiel, arranje alguém fora do casamento. Isso de permanência obrigatória só existe nas Mônadas de Leibniz ou com araras e outros animais irracionais.
Tenha bondade no seu coração, xingue apenas aos maus, bata apenas nesses demônios, e o máximo que puder. O resto do tempo, o que conseguir, vá pescar, faz bem para alma. E olha, nem precisa pegar algum peixe.
Penso que tudo vai mudar, que não devemos sofrer antecipadamente, temos de ter fé, acreditar que dias melhor verão, outono, inverno até a primavera, e mais que tudo, cada estação um bonde de esperanças.
Todo mundo junto é a unidade do complexo. Seja elemento simples. Um número ou uma idéia, talvez um grupo unitário e não se encha porque não há vantagem alguma nisso.
Não deixe para agora o que pode fazer depois. Protele, demore, ande tartaruga, caminhe de pé-de-pano, vai na espreita, de unhas na carne. Nada de tarefas, de arrumar a cama que só atrai ácaro, coisa alguma, se mova à deriva. Há tanto por fazer que não se dá conta. Tenha leveza, não se esforce, nem planeje seu futuro, nunca sonhe com coisas, bens, objetos, deixa lá o que seja. Atravesse os dias como vagabundo, suba as montanhas, entre em territórios estrangeiros, inimigos, lugares de onça, de exclusão direta. Nem pense em aprender línguas, sinais. Só o que é já dignifica qualquer outro, todos querem ser bons e melhores. Não seja nada, seja absolutamente dono do acaso. Vai ver, como eu vi, que a felicidade está em cada perda, em cada instante imóvel, no desaviso, e viverá liberto das amarras do óbvio, de sua chata cultura, de suas memórias miseráveis, de sua estúpida ganância, de seu poder escrito por algum interesseiro, de uma história covarde, mentirosa. E se sentirá bem, um verdadeiro ser, desconhecido.
Beije, até aí vai bem. Não se entenda em casar, ter filhos, cuidar, trabalhar sol e noite, carregar palavrões de suas chefias, viver sob o peso dos covardes, e de grupos. Se mande, pique a mula, levante poeira. Beije outra vez, e mais algumas vezes. Diz que ama. Faz bem a qualquer desconhecido. E suma, vá tirar o pai da forca, catar manga, descer do pelego. Nunca espere fidelidade dos infiéis. A vida é um luxo, e para poucos.
As pulgas que nos levam à peste, que sempre nos sugou até aos ossos, experimentam, faz pouco, saltar para outro lugar, deixando sobre o manto terreno nossos restos, vão para lá em breve, a fim de continuar a destruição que começaram, há muito tempo.
Depois do fervor dos governos centralizadores, o incêndio da memória e história humana chegará ao clímax. A fogueira se apagará e cinzas frias, almas e carnes, vidas congeladas a vagar na escura forma da eternidade, em busca de nada. O fogo brilhante da estupidez será o precursor da geladeira apocalíptica onde viverão os fantasmas sem passado.
Hoje, começa o amanhã, sem nenhum passo para o futuro, sem retorno, em uma ida contínua, em um apartheid contínuo, no desnível abrupto de abismos e escuridão. Hoje, se processa as moralidades, as regras feitas para obedientes, os que seguem a fórmula e amam o algoritmo. Hoje, o retrovisor do carro da perdição não mostrará o que foi ontem, e a úmida janela do futuro estancará qualquer certeza. Hoje, nem virtuais encontros serão possíveis, morrerá o possível, e a curva da indignidade, o desvio será o que une dois pontos entre agora e depois. Hoje, o saco de peles do réptil estará só, na unidade profunda de si mesmo, no buraco negro de seu vazio.
Quando sentir que necessita superar a sua castração, seja um bom eunuco, carregue consigo suas partes faltantes. E obedeça.
Depois de enfeitar e limpar a cidade, passar cotonetes nos cantos sujos das diferenças abissais, teremos escrito em placas metafísicas a justificativa da beleza, da pureza que é o nome conhecido da idiotice.
É mais fácil vestir as chuteiras ao contrário do que jogar a favor do adversário. Melhor amar o culpado armado do que salvar o inocente.
Todo traidor tem nome, na testa. Se não conseguir ler, conheça seus atos. Se não puder conhecer, entenda o contrário, tente um espelho.
Fale com seus amigos, diga olá. Ganhe mais alegria, receba prêmios, seja mais presente, mostre o ladrilho de seu banheiro, conte seus segredos. Faça o melhor, agora com preço reduzido. Vai aparecer em todos os jornais, em todas as redes sociais, na caixa de correios internacionais, em outras línguas. É fácil. Todo mundo vai saber. Mas antes de prosseguir temos uma surpresa, vale ouro. Responda à nossa enquete, diga o número do banco, conta e senha, o seu documento de impostos pagos. Pronto, agora é só ficar quietinho em casa.
Para servir uma taça de vinho e leva-la a um convidado importante, abra a garrafa, ponha o vinho até menos de um dedo da taça, segure na haste da tulipa, ande olhando apenas, somente e unicamente para o que está fazendo, não espere do conviva qualquer recompensa. Entregue a bebida e saia de fininho. Não se mostre, não se exiba, nem desconsidere o seu serviço. Seja técnica, egoísta, única, encolhida, resguardada, quieta, prática e determinada. Em tudo faça assim. Garanto que no futuro será tão fria quanto qualquer alma vencedora. E será feliz, e é o que importa.
Tudo que possa a todos fazer de bem acontece quando se pensa em ninguém. Comece consigo mesma.
Para sair de casa entre em casa; vida de botão.
Nunca bata em seus alunos, apenas grite, grite, grite. Ninguém vai te acusar por maus tratos.
Se não puder dizer a verdade, pense na liberdade de mentir, e mentir a sua verdade. Ninguém acreditará na mentira, jamais, apenas na verdade que mentiu.
A única solução para o remédio da humanidade é deixar de ser comprimido. Parece pastilha, mas na verdade é um chá de liberdade.
Sobre o bem e o mal de fazer o pão depende da farinha, do azeite, dos ovos, também do fermento, do forno, do calor, independe de quem o faça. Qualquer um fará mal ou bem, e dividirá o pão mais ou menos.
Chuchu de cerca atravessa aduanas, elimina bordas, destitui inspeções, fronteiras, se apresenta dos dois lados, revoluciona. E o que importa se se importa com o que importa? Importante saber que alimenta a igualdade das diferenças.
A raça humana é única, e ainda insiste em ser racista. Não sei, acho que é uma coisa da raça.
O mais novo foi para a cidade, o mais velho ficou no sítio, o do meio vendeu a safra, e eu, que fui adotado, recebi minha parte. Não posso falar mais porque estou viajando no momento.
Precisamos de limites para estar livres. Mesmo descalço, necessitamos do chão, dos pés, da pele, de tudo que faz a vida, da vida mesmo, e da vontade de sermos livres. Não é absurdo? Por isso eu digo aos meus filhos, fiquem longe dessa gente livre, eles não conhecem os limites.
Não tente fazer igual, cada um tem sua letra na vida. A diferença é o único modo de fazer a igualdade. O mais feio traço nasce de quem avalia.
Se o cão te mordeu, garanto que não foi porque ele não te avisou. Tudo bem que poucos entendem a cachorrada, que quase ninguém avisa quando morde. Mas o bicho não é assim, eles podem não ter muita moral de mando, mas são éticos.
Correm em pé os patéticos; esqueceram que são lagartixas.
A justiça reinará. Ela fuzilou os inocentes. Ela pesará o peso das diferenças e destruirá a balança, passará a régua. Porá muros nos territórios, gradil feito de fogo, e queimará os desobedientes. A justiça será eterna, solitária de sol iluminada, única e verdadeira alma tipológica.
Fará a lei, sentará na cabeceira da mesa das hecatombes, dos holocaustos, e dividirá o pão consigo mesma. Mais tarde, quando a fome vier, comerá a si mesma sem precisar de recolher os restos no guardanapo.
Deixará o banquete se arrastando sobre o sangue, e morrerá docemente no jardim de inverno do palácio protegido. Morta, a humanidade será livre.
Toda seleção homogeneiza a compota. Vence na prorrogação.
O começo é antes do primeiro passo.
A ditadura elimina a memória, para não esquecermos.
Mais perto do céu, na terra das nuvens se caminha em flocos. Colheita de algodão sem sangue nas mãos.
Abre a porta para entrar; atravesse a saída.
Mais tarde descansa; desperta mais cedo.
Um dia atrás do outro; dominó. Cai a vida.
O tempo não voa sem asas.
As palavras são caladas.
Conheci o passado depois, bem depois que passei o presente.
As pessoas inteligentes são aquelas que jogam o xadrez da vida comum. Elas parecem presas, mas estão livres, fora da cela.
Primeiro vi os prédios, depois vi as pessoas, então pensei que sabiam disso, que antes de tudo está, a testemunha de nossa existência, a coisa.
Só esquecemos as luzes do passado quando nos apagam o futuro.
Os melhores dias verão.
A única coisa que podemos emprestar é o tempo. O resto a gente cobra pedágio.
Inverne o outono, bebe o descanso.
Certamente deixei de fazer algo de bom para os filhos. Todos, no fim, deixamos. Creio que de tudo que busquei de melhor, os meus erros, que infelizmente não foram muitos, prosperaram.
A norma é o ponto cego entre o que produz a normalidade e a loucura normalizada.
Se eu pudesse viver amanhã, se isso acontecesse, se pudesse optar, eu viveria hoje como se fosse amanhã. Assim deixaria as certezas despertarem depois. Que se determinem. Quero esse momento para todo o amanhã. Contudo celebro, e peço isso, que amanhã seja hoje, cheio, e desse jeito. Bem que sei que esse instante estendido feito um tecido de paz é o amanhã que acontece agora. E se não houver, nem penso, apenas me deixo seguir, a ser levado, desde já com a promessa de vir qualquer manhã.
A porta fecha; abro a porta que se fecha.
Entro no fechado desta porta. E como atravesso a porta; e estou no recinto. Entendo assim, que ao abrir a porta e fecha-la, devemos fazer as nossas escolhas.
Pensar nas pessoas, no jeito delas, no gosto delas, o que melhor cai, o que melhor se ergue. É o ritual de passagem, a entrega. E sei que devo voltar, abrir a porta outra vez, e levar o vinho.
O melhor caminho para se chegar ao início é nunca ter partido. Mesmo assim, depois de não se mover, o início é uma abstração.
Ganhei o campeonato mundial de pregão vendendo o que mais temos no mundo. Acharam que estava ironizando. Ganhei, e não gostei. Foi quando disse: "olha, a fome!"
Viajei para o interior em busca de gente simples, cheguei de carro zero, estava com roupa de marca, sapato também, mas e daí? Desejava a paz, a alegria sem motivo. Saber da vida.
Ver os modos das pessoas. Buscar alguma raiz, um sentido de vida que se foi, que escapuliu. Fui em busca de algo que me tocasse, que mexesse com meus sentimentos, que pudesse melhor entender a vida.
Por isso pensei em ver pessoas que vivem meio que parecidas, que em tudo pudessem ter um certo modo. Andavam do mesmo jeito, sabiam das mesmas coisas. Falavam com simplicidade. Era isso que sonhava.
Cheguei e desci num lugar distante, um povoado de gente quieta. Perguntei se eram pessoas simples. E me responderam com certa demora: Bem, até que o senhor veio, a gente estava esperando conhecer.
Leve a mão da pluma, leve.
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Pedro Moreira Nt

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