adeus
Ela me disse adeus porque era crente
tinha nela essa semente
podia ter tido na voz o aceno
de um acento de tchau
que é olá distante
ter perdoado o síndico
e acertado as contas
em vez de descer a escada para economizar eletricidade
cair de boca na cidade
na vida das coisas eleitas
almas desfeitas
nada disso
simplesmente me deixou nesse canto
vazado
se mandou
sem nada
palavra que tivesse
beijos de nunca mais
qualquer sombra de partida
amarrou o jegue e partiu o cabelo no meio
deu no pé
uma fuga mais que não te quero mais
maior que um voo ou um vou
catou o que podia
mala esquecida na cozinha
faca ensanguentada
nem cuidou nem lavou
na tijela a carne temperada
ainda se preocupava
me esperava
foi do trabalho
viajou?
seguiu o veio do rio
a tormenta do dia
desapareceu que nem fumaça
que faço eu sem esse pedaço
essa parte que me cabia
alma de asas
mãos crochetadas
que digo daqueles dias
de ontem
de agora faz pouco
onde jogo minhas coisas
fui à caça
andei
perguntei
não viu aí um amor perdido?
era nosso inteiro retinido
no copo do último gole
na hora do deixa comigo
entrou em algum cinema
desceu a ripa no teatro?
está em algum botequim
por que se preparou?
desci as horas
descansei as dúvidas
fiquei passado
deitei sem orelhas
caminhei basso
voltei à cozinha
aquilo me aturdia
fritei os pedaços
comi em nacos
liguei o rádio
arrumei a sala
abri a trouxa
o zíper enroscado
de dentro o soluço
de um parto
estava naquele estado?
foi ao médico
podia ter tido um troço
eu não estava
cheguei quase agora
pensei que arribou
andou na caliça
endireitou o pelego
escorregou para o vão das coisas
tomou um carro
ergueu o horizonte
fui atrás
levei o que devia
me esperava
com um feijãozinho apertado
tive tanto medo
e era nada
era tudo
fiquei lá
beijado e mudo
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