pensava em ti
pensava em ti ontem às quatorze e vinte e seis da tarde
lembro por segundos
as horas que não vieram
de seu perfume
aquele beijo
sabe que quase peguei o último ônibus às dezessete horas e oito do início do fim do dia
no lusco fusco
que mais não tenho seus olhos
suas mãos
seu lume
e se tivesse ido
chegado aí
ficava entalado no tempo perdido
se vai vir me ver se virá num tempo que chega
se dirá que ainda me quer
que depois de tanto esquecido pode ser lembrado
esse que agora
quase vinte horas e dezessete
amanhece antes do sono
abre a janela de tudo visto
as falas inventadas
de jeitos
e tremeliques
falsas verdades que à vinte e uma horas e doze
se acabam
fica aquele estado
desgovernado de palavras
um açoite no ar sem gosto
se vier me diga
que nem te escrevo
nada digo amor
porque sabe mesmo que cedo me levanto
lá pelas dezoito e vinte e seis para
preparar o café
na oração do costume
somente às nove e quinze e um pouco mais dessas horas
fico à mesa
mexendo a xícara
fazendo sineta
mentindo que entra
já deixei prontos meus sonhos de amanhã
agora mesmo que não faz quinze e trinta e dois
vi no pulso
vi na batida de espera
agora mesmo passa um vulto
vai à cozinha
passa à janela
sinto teu perfume
sinto teus olhos batendo cílios em mim
sua voz de mistério
deixa ver que abro a porta
mal me levanto da cadeira
porque virei a página noventa e sete
às dezenove e trinta e nove
sei mais do tempo perdido
quase telefono e digo venha meu bem
já sofri todo castigo
perdoa aquele dia às doze e dezenove
quando queria gelatina
e não teria
falei bobagem
era nada
perdoa a voz de ventania
vou ao capacho onde ficam os velhos inúteis sentimentos
bato neles
extermino o pó
acabo com as nulidades
corro ao fim da casa
abro a porta de saída
deito ao quintal às vinte e duas e quatorze
passa a meia lua
estrela cadente
vejo a constelação
de pouco o cruzeiro
não é que entra
já não sei hora
eu me perco?
joga as malas na sala
um presente no aparador
está tão linda que choro
sem minutos
em um segundo de soluços
chega do horário contrário
vem do oeste
muda o tempo
nasce do passado
do que já foi
do que era perdido
faz sem motivo
um rodeio
de voltas e me abraça
me aperta que quase parto desse abrigo
Pedro Moreira Nt

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