Planejamento estratégico

 




Meise o achava horripilante com aqueles pelos saindo da orelha até o nariz, uma jaqueta de jeans suja com buracos desenhados à caneta, de roupas de baixo, arrotando qualquer coisa e soltando gases. Mas ela o amava. Talvez porque a origem social, a formação tenha influenciado, feito com que Meise viesse a gostar daquela navalha.

Ela, uma pessoa comum, alta, bonita como dizem, a boca inchada, voz rouca de quem saiu da cama faz pouco, muito bem treinada, voz assertiva, dura, risonha como desconfiada, olhos cobiçosos, e simples, pessoa boa mesmo, só pensava em dinheiro, nunca em mal algum, nunca imaginou qualquer distrato com qualquer pessoa.

Foi cair de bico nesse amontoado. Como pode? Meise gostava de enganar, mas sem maldade, dizia que ia a um lugar e chegava em outro, entende? Eu tive pena naquela época. O Arlindo só tinha aquele Porsche, tudo bem que nunca bebeu na rua, fazia seu churrasquinho, sempre mostrando o umbigo e o estômago dilatado, tomava lá uma ou três caixinhas dessas de cerveja light, comia um frango, farofa, e picanha.

Tudo bem, não passava fome, tinha lá sua indústria, tinha carteira no comércio, alguns apartamentos mas não era de riqueza. Nunca abriu um livro por causa do esforço gratuito, de vagar sem saber para onde. Era um cara legal, dava lá, vez e outra - não sempre-, uma surrinha em algum empregado que o desapontava, isso não tem nada de mal, punha no armário de limpeza e só libertava na hora do ponto. Veja que ainda dá a oportunidade da pessoa ter uma garantia, mesmo faltando ao trabalho, a gente tem de pensar nisso. Bom coração. 

O que talvez passasse do limite, eu acho, era os fogos de artifício que soltava em cima das casas para provocar incêndio, mas não era nada demais, época de Natal, isso pode acontecer, acidente. De resto era quieto, tinha lá um grupo que participava. Participava quer dizer, enfiava nos bolsos algum dinheiro, não muito que ofendesse a receita, apenas para garantir uma ou outra licitação, coisa sem importância.

Era mais favorável para essa gente, amigos de infância, gente da mesma pele nobre, pessoas de bens. Agora, ele, por sua simplicidade causava horror a essa gente metida, de fato que Meise não era assim, ela usava de suas tentações para conseguir um pouco da paz, porque o Arlindo não era fácil, o que ela queria em casa ele não dava depois de uma noitada, então está certo, ué, ela saía com pessoas corretas, não era qualquer um, não, ela ia com amigos próximos, nunca foi louca nem nada.

Meise é muito esperta, rápida no gatilho, e isso é lindo. Se há uma coisa que admiro nela que é prova de sua excelência é o jeito brutal como trata a todos. É de uma potência, é de uma claridade sonora mostrando muito bem quem manda. E isso é importante, não viemos ao mundo para perder tempo com coisa sem valor.

Não é tirar o couro, e sim fazer trabalhar. E ela é boa nisso, faz mexer pedra rapidinho, um doce de pessoa.

Eles não discutem, não brigam por causa dessas bobagens, estão sempre fazendo amigos, com conversas sérias a respeito do amor, da felicidade que são os negócios que possuem, sempre achando um jeitinho para conseguir mais, ajudar quem necessita, os filhos. Aliás, lindos, cada um saiu com a cara de um focinho do outro, uma graça. 

Subiam nos bancos do carro, quando criança, gritavam, gritavam, uma graça. E só que já entenderam, o Arlindinho Filho e a Meliane não querem estudar. E o que os pais fizeram? Contrataram professores de inglês e mandaram os dois para viver em Miami para aprender espanhol e inglês, gente, eles são novinhos e já trilingües, sem bloqueio.

Não, não foi assim. Depois desses anos, a Meise continua a mesma, uma mulher forte, tem dois celulares, dois brincos, um enterrado na pele da face, foi feito cirurgia para isso, muito chique, tatuagem de causar inveja. Os dois têm tatuagem quase no corpo todo.

São humildes, são amorosos, têm o jeito deles, o modo de ser que deve ser respeitado. 

A Meise e o Arlindo são pé-de-valsa, gostam de cantar músicas modernas, criam passarinhos um mais lindo que o outro, tem riso de peixe, igualzinho de tanto que branquearam. E hoje, nem se nota um traço caboclo neles mais, são tudo metrô. Metrosexual, pessoas que usam brilhantina diferente e perfume que vem de longe.

A vida pode ser muito cara para eles, por isso lutam, nunca deixam ninguém passar por cima deles não. Eles se casaram cedo, mal ela se formou ele já foi ver como é que ia ficar. Foi lá e conseguiu uma vaga para ela de doutorado, e já é. Já conseguiu com esforço, aquela loucura, aquela dureza, mas conseguiu, já é diplomada doutora. Ninguém acredita, mas é verdade, ela que só escrevia muito quando fazia a lista de compras para irem buscar ou fazia no virtual, ali no olho do bicho.

Digo isso, sim como no presente, no agora. Mas sabemos que é passado. E não se desenterra o acontecido.

Eles se reuniram em casa numa tarde chuvosa depois que as crianças voltaram de lá. Eu lembro disso. Elas queriam sair na tempestade dar uns rolês que lá de onde vinham era comum dar uns tiros. O pai disse não. Mas ficaram daquele jeito encolhido, precisava ver. Não deixou as crianças brincarem mais com isso.

Eu fiquei com pena, depois que se acostuma é difícil tirar o gosto. Queriam porque queriam pôr fogo numa vila. A mãe perdeu a paciência: vão ficar de castigo, onde já se viu fazer uma coisa dessas, não vê que está chovendo? Essa parte calou o bico deles. Pararam de reinar. Mas sabe como é a juventude, mal vê uma pessoa pobre na rua já quer bater. Coitadinhos, eles não têm idéia que os outros sofrem, ingenuidade. 

Odeiam a pobreza. Enfim, eles tentaram não enrolar muito, frequentavam uma igreja poderosa, de muito fervor mesmo, garantia que aumentariam os bens da terra indo para o céu. Pensaram até de ir até o fim do planeta para ver o precipício só para achar um jeito de não cair lá, mas subir. "Se a gente morresse de acidente, Deus perdoava", claro, acidente, e iam para o céu.

Eu achei isso muito engraçado, mas como as crianças iam pegar firme nas empresas e tal, iam ficar garantidos, eles podiam morrer. Eu não ia porque não tinha dinheiro para pagar o passaporte. Sim, um passaporte que é entregue a todos que quiserem se revelar.

Compraram uma fazenda no céu, uns apartamentos à esquerda e um hotel de veraneio nas margens direita do rio eterno do lado direito do Senhor. Um lugar bonito, eu vi o mapa, um pouco depois da constelação de Escorpião.

Teriam tudo ao triplo, podiam brincar com leões, mas disfarçados de coelho porque os leões não vão com a cara da gente humana. O folder eletrônico mostrava muito mais, e eles podiam ter o carro do ano uma vez por semana. Quem não ia querer?

Era só ter fé. E eles tinham, nossa, como tinham. Compraram o necessário para ter uma vida eterna boa, sem grandes esbanjamentos no céu. Nunca jogaram dinheiro pela janela. Eu lembro que a dona Meise perdeu a paciência no mercado, o atendente estava demorando, e ela não gosta de gente burra, as moedinhas tinham de sair logo, mas demorava.

Deram o troco errado, coisa chata. Ela se levantou nas tamancas e chamou o gerente. Na hora devolveram o dinheiro dela dobrado. E ela tinha razão: muitas vezes o azar nos trás sorte. Eu perguntei por quê? E ela me disse que tinham dado o troco certo, e que acabou levando a melhor com o escândalo.

Outra vez perdeu uma moeda no sofá, deu o que fazer para achar. Eu fiquei com pena, coitada, pus uma moeda lá, fiz de conta que achei. Mas nossa, como ficou contente, parecia uma criança. Era lindo de ver.

Como disse antes, eles marcaram o fim desde o começo. Sim, sim porque tinha tudo riscado num mapa bem feito, ficava na parede para qualquer um ver. 

Fizeram o tal planejamento estratégico em que metade de tudo ia para o centro religioso de apoio aos que ficam até o juízo. Eu ganhei uma força deles, um calendário, umas roupas e a casinha que hoje moro.

As crianças dividiram o resto. Contrataram uma empresa que administra tudo e estão, até agora, cuidando da vida e se preparando. Uma vez por mês, não pode sempre, escondido de deus, eles falam com os pais por um telefone especial.

Não posso dizer de outra forma. Não dá para ver porque são transparentes, fantasmas mesmo. Eu não conseguia ver.

Passou esse tempo, organizaram tudo, e saíram de carro e o jogaram contra um caminhão, morreram na hora. Mas disseram que tinham tomado as pílulas da consagração, então não sei. O engraçado disso é que o caminhão que eles bateram era da própria empresa, um aviso, eu acho.

Talvez sorte, o seguro, não sei. O que sei é que se foram.

E é isso.

Como? Não entendi o que tenho de fazer.

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Está bem.

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Pedro Moreira Nt



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