dia de sonhar

 




dia de sonhar

despertar dormindo
ver tudo se indo
e voltar

atordoado do dia
fechado
abraça a cama
amiga

gente a marcar o passo
vozes no cangote da casa
fala pequena

dedo no céu
na cerca
sujado na terra

cansado de aninhar
quer voar
feito pardal

e vai no tombo
acerta o lombo
fere as notícias
no grito

elas nem se ofendem
são tão metidas
inchadas atrás da máscara das mentiras

e cansa no café
a voz de um cientista
é um nada de entrevista
enjoa no almoço
uma viola ruim
voz de taquara rachada
faz beicinho
coisa besta

arruma os tarecos
nem janta
vai para a ceia
já meia passada
roupa largada

assiste aquelas coisas
enlatadas
fechadas na compota sem gosto
palavreado feio
metido à descanso
ronca a voz
faz a cesta

não tem história
cara igual a do Teno tomando umas
a outra parece a Laguá reinando
aquilo finge bondade
sem sede
vazio de chiqueiro
depois vem a tal
e aquela briga
que diz amor
que nem existe
e acaba
nem se sabe

é filme

gente no meio do papel
gente de mal a pior
tristeza desgovernada
aquela fome
que a gente sente

e isso vende

acorda no sono
anda até a esquina
pisa nos canteiros
atende aquele negócio
escreve um desespero para alegrar

se arrasta até um gole
já nem tem graça
descansa fora
pé para cima pisando nas estrelas que nem são
a vida vazada

mostra tanto que era nada

feio em tudo que falta
em tudo que apronta

arrasta as chinelas
vaga um livro
aperta um traço

diz para si que tem saudades

do quê?

os amigos caíram de cima de si para dentro do umbigo
amores telefonaram para os vizinhos
paixões passeiam lotados nos caixões de tralha
- vêm do mercado
nem disfarça

meio vergonhoso

entra debaixo do colchão
o estrado listrado nas costas
ouve um tambor
um mal ruído
fica lá embrenhado
hibernado
cerrado
trancado carregando sonhos de não ser

ah se eu não fosse agora
nadinha de mim teria ido
aqui dormido
feliz de esquecido
obrigado
se amanhã eu saber
se logo possa não-ser
furaria o cozido de qualquer inimigo
só para me esquecer

nem seria desse lugar vacinado
vazio engordado de vento
não tomaria água destilada na veia
porque não tem remédio
nunca mesmo teve
eu me esconderia da minha sombra
só para não ficar burro e envergonhado

esqueceria da existencia cumprida
esse castigo de vida
que é viver adulterado

mantido na força da dor
do bem nunca tido
nesse estado de vida
nesse lugar estrugido

se deixar de ver que vejo
se me cegasse o coração
meu egoísmo morresse na lama

sairia debaixo desse colchão
voltaria para a cama
e até sonharia
que nada disso








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