A esquecer


 



E me dá sua mão como eu fosse a tormenta

o choro da noite

o quieto retorno das mesmas palavras

E me pede carona como fosse um estranho

favor do desconhecido

de tanto adoecido

na rispidez da passagem

E fala para que não ouça

nada diga do dito

o cheiro humano

caleidoscópio maldito

flores mortas outra vez

E conta de mistérios

mas são obrigações

deveres antes compridos

retinas do redivivo

alarme da existência

E canta para injuriar

para não descansar um segundo

ter o gosto na face do mundo

o partir que é tão ficar

E me leva que não brigo

que corro indo devagar

E me abraça esquecido

e me faz esquecer

e me faz lembrar

a chuva que se lamenta em cair

deitar a poça e a descida e o rio que vai ao mar

E me chama

e me fogo o calor de sua presença

essa transparência

E me empurra no anoitecer

que é o amanhecer distante

embalado no corpo da vida


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                                                                          Charles


LIVROS DO PEDRO

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