Dia dos Pais, a passagem
Sabemos que as guerras convocam os filhos e não os pais, eles permanece com seus galardões revisando, revendo, lembrando em permanência a obediência filial. Ele marchará para a terra de ninguém, porque não haverá pai algum para proteger-lo. Uma espécie de aborto social, o conflito que gera sangue, sofrimento.
Lugar do trabalho dos filhos, capinar a roça da dor, contrariamente, ultimando a tarefa de proteger sua descendência, os seus pais. Pureza feminina e masculina, almas imaculadas que fortaleceram a cria, deram a ela o fogo interno, a energia para a luta, ganhando ou vencendo.
Qual expectativa disso? Senão manter a origen da raça, encaixe de um passado que se faz presente na ponta de fogo, no alarde guerreiro que deseja espantar quem ousar ultrapassar os caminhos dos pais.
A legitimidade da guerra só pode acontecer nos limites do clã, de uma aceitação geral e inequívoca de entrega viva daquele que pode ser morto. Há um deslocamento no espaço desse Atrium, o grande hall, o coração da casa, não a construção, mas seu labor, espaço da ação, como local das primícias, do sagrado, da atividade, da presença brilhante do fogo, o Lare, ou o lar. É a devolutiva dos filhos, a entrega da vida para a proteção leal de tudo que em si permanece, passado no presente, carregado e disposto ao ritual da vida e da morte.
As guerras, os conflitos, a lutas seguem, e encontram o filho desde a saída do lar. A cada passo, o uso de todo um conhecimento adquirido, emoção feita em atividade, memoria. E se vai, com ou sem permissão ao caminho das batalhas, em busca de encontrar equivalencia, equidistancia do exemplo experienciado, de uma vida que atinge o seu grau máximo e deve, por um dever de direito comum, de uma resposta cultural social, corresponder à pureza dos pais.
Tira de meu ventre sagrado o broto flamejante do Sol e o entrega para iluminar as sombras da incoerência.
Faz com que todo o banho de luz elimine a profundeza das trevas. Leva-me a seu pedido, ao que imploramos, ao seu caminho, por sua verdade que é a presença, que seja nascente, fulgor, a vida.
Entrego a ti esse que parte, esse que corta em pedaços tudo o que sabe, que possa percorrer por seus pés as trilhas que realize, que possa rever suas pegadas para o retorno da eterna acolhida. Ame e cuide do que aprendeu, esteja elevado como pessoa que é, e saiba retornar.
Vem comigo dias e noites, vem umidade e sombras, trevas profundas, vazios de eterno e abrupto abismo, que o voo dos que te buscam te encontrem, que as alturas sejam rasas, que as planícies se tornem outra vez montanha por sua força.
Deixa-nos sós que estamos juntos e acompanhados, levamos conosco a esperança em cada momento que faz sua passagem por este mundo. E se se nos perde, se morre, se desaparece, ainda assim acendemos o fogo sagrado em nossos corações para que perdure em nós a alegria de uma vida que se deu, se entregou aos caminhos da existência.
Não leve minhas lágrimas, a minha dor, carrega contigo a certeza, a luz de Feu, a fé.
Todos os dias de saída, de quem sai do espaço do lar, leva consigo os pais. Todos os dias alguém não voltará, e todos os dias se dá o eterno retorno do bem de uma vida.
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Pedro Moreira Nt
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