Dia dos Pais, a passagem

 

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    Meus pais se foram faz algum tempo, acho que mais de dez ou quinze, talvez vinte passados. Eles nos deixaram com a tarefa de recordar quanto foram pais. Chamam-se Pater, aquele que tem um atrio, um lugar percebido pelos demais da qual permanece, está pronto para defender, tem um sentido de Pas, algo que significa puro, integralmente revestido do que se apresenta. A quem se apresenta? Para quê? Por quê?

    Sabemos que as guerras convocam os filhos e não os pais, eles permanece com seus galardões revisando, revendo, lembrando em permanência a obediência filial. Ele marchará para a terra de ninguém, porque não haverá pai algum para proteger-lo. Uma espécie de aborto social, o conflito que gera sangue, sofrimento. 

    Lugar do trabalho dos filhos, capinar a roça da dor, contrariamente, ultimando a tarefa de proteger sua descendência, os seus pais. Pureza feminina e masculina, almas imaculadas que fortaleceram a cria, deram a ela o fogo interno, a energia para a luta, ganhando ou vencendo.

    Qual expectativa disso? Senão manter a origen da raça, encaixe de um passado que se faz presente na ponta de fogo, no alarde guerreiro que deseja espantar quem ousar ultrapassar os caminhos dos pais.

    A legitimidade da guerra só pode acontecer nos limites do clã, de uma aceitação geral e inequívoca de entrega viva daquele que pode ser morto. Há um deslocamento no espaço desse Atrium, o grande hall, o coração da casa, não a construção, mas seu labor, espaço da ação, como local das primícias, do sagrado, da atividade, da presença brilhante do fogo, o Lare, ou o lar. É a devolutiva dos filhos, a entrega da vida para a proteção leal de tudo que em si permanece, passado no presente, carregado e disposto ao ritual da vida e da morte.

    As guerras, os conflitos, a lutas seguem, e encontram o filho desde a saída do lar. A cada passo, o uso de todo um conhecimento adquirido, emoção feita em atividade, memoria. E se vai, com ou sem permissão ao caminho das batalhas, em busca de encontrar equivalencia, equidistancia do exemplo experienciado, de uma vida que atinge o seu grau máximo e deve, por um dever de direito comum, de uma resposta cultural social, corresponder à pureza dos pais.

    Tira de meu ventre sagrado o broto flamejante do Sol e o entrega para iluminar as sombras da incoerência. 

    Faz com que todo o banho de luz elimine a profundeza das trevas.   Leva-me a seu pedido, ao que imploramos, ao seu caminho, por sua verdade que é a presença, que seja nascente, fulgor, a vida.  

     Entrego a ti esse que parte, esse que corta em pedaços tudo o que sabe, que possa percorrer por seus pés as trilhas que realize, que possa rever suas pegadas para o retorno da eterna acolhida. Ame e cuide do que aprendeu, esteja elevado como pessoa que é, e saiba retornar.

    Vem comigo dias e noites, vem umidade e sombras, trevas profundas, vazios de eterno e abrupto abismo, que o voo dos que te buscam te encontrem, que as alturas sejam rasas, que as planícies se tornem outra vez montanha por sua força.

    Deixa-nos sós que estamos juntos e acompanhados, levamos conosco a esperança em cada momento que faz sua passagem por este mundo. E se se nos perde, se morre, se desaparece, ainda assim acendemos o fogo sagrado em nossos corações para que perdure em nós a alegria de uma vida que se deu, se entregou aos caminhos da existência.

    Não leve minhas lágrimas, a minha dor, carrega contigo a certeza, a luz de Feu, a fé.

Todos os dias de saída, de quem sai do espaço do lar, leva consigo os pais. Todos os dias alguém não voltará, e todos os dias se dá o eterno retorno do bem de uma vida.

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Pedro Moreira Nt

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