Não me sinto bem

 






    Às vezes tenho vontade de nada fazer. Dormir no dia acordar na tarde do próprio sono. Desativar as certezas, cansar as horas, me desculpar para o tapete quando me derrubo, me achato, fico compacto no nada, vazio de cheio.
Sento, como, e rio na frente do espelho, mas no escuro. Fico a mostrar os dentes aos meus fantasmas. E não disperso desse estado. Fico nele, comendo baratas, ratos, como malas, como bolsas, como coisas no pensamento e desando na dor de minha ausência.
    Não que queira me jogar fora, penso no peso, no desastre de ser atirado para essa atmosfera dormida, despertar no sonho, morrer acordado, viver meio que isso.
    E se eu morrer, o que não te faz bem, mesmo que manche a maquiagem, corte fundo a pele da idade, mostre as cicatrizes do tempo, e que disfarce sua alegria. Vem toda cozida, afundada da água fervente o desgosto latente. Não me dê conta de que os pesadelos são graciosos. Que arranco suas unhas à noite, como fantasma visceral de seus maus pensamentos.
    Apesar de tudo, do peso que é a vida, vejo quanto é leve a gordura que carrego, o sapatos sujos, e os olhares ternos de controladores prontos a te denunciar por lavar o campo das sementes e gastar horas na rede de pescar, e dormir no barco entre descer, escorregar no líquido viver. Isso também é morrer.
    Ando mal, sinto umas pancadas na porta, uns troços no trinco, umas coisas assim. Por isso não posso dar minha opinião. Você sabe. Se eu não sei escolher só posso optar por coisas que já estão aí. E mesmo, sabe, essas coisas me cansam.
    O fato de existirem, a pretensão de serem corretas demais, certas. E por que dizer do agora se mal foi o instante? Que valsa demente é a voz da palavra. Crava em mim esse quieto das folhas de vento derrubadas, paisagens estonteadas de queda intermitente.
    Ou mais que tudo, se tivesse um único pensamento meu, já não o teria, alguém entraria no meu jogo social, na minha partida comunitária, nas minhas vantagens e tomaria isso de mim, então melhor nada dizer. Cumpro o que for para fazer, estou mais ciente em ser estúpido do que alguém com pensamentos.
    E mal penso se penso no bem de aguardar que me digam qualquer coisa para eu sonhar, se nem acordo do pesadelo de existir. Amor incoerente que se compra no mercado vizinho, feito blusa e apego, sexo como desejo, e o que mais senão esse abandono no medo.
    Temo existir, encontrar as falas passadas. Lembra? Sabe que quero me manifestar geral para você? Não sei, nem de mim saber que posso imaginar. Agora calado.             
    Agora encerrado, ensimesmado, acabado sobre esse sí mesmo.
E tenho de me alimentar com o que todos se alimentam, dos enlatados, das caixas fedorentas, das cores de antrazes e dizer que é bom esse mal.
    Fede antes do banho, sua a pele animal, a carne de dentro recolhida. E se aquieta no crochê de poucos pontos. Engana a sujeira das franjas.
    O sentido vem antes do significado, e se fica à mesa a entabular conversação com a sobremesa, pronta e exterminada em um golpe de colher. Aquele bolinho malcheiroso entalado à garganta, esfregando uma história sem sentido no estômago. E mais o quê?
    Que descanse a minha paz nessa guerra de panos, empanados gostos, risos forçados, cara mendiga de piedade. Estou doente: implanto a cara de morte, de moribundo e vou igual, veio de semente, semelhante na terra fria.
    Melhor seguir a fórmula, seguir a lógica que não aparece, não vem manchada com minha vontade. É muito ruim ter vontade. No fim fico cansado de ser caçado como algo estranho, alguém que não tem grupo, não está no time, na turma, no mesmo boteco bebendo e comemorando uma nova marca de qualquer coisa, de bebida de pão-caseiro, não posso dizer. E para mim é bem melhor o silêncio que é esse jeito meu, que todos ao meu lado têm, de ser incongruente, presente e ausente.

    Ficar, permanecer, endurecer ali jogado feito um fardo existencial que me custa caro, ainda com um riso programado que me dilacera, vez e outra um riso, mas não é de rir. Um esforço muscular para mostrar os dentes para uma imagem.

    Gritar o nome de um santo, de um deus, de alguém como um escudo à minha mais profunda ignorância que é a solidão sem-fim que começa e termina o tempo todo. Um ato de nada, um nada ativo, que é uma bóia, uma folha, objeto jogado num rio sujo que é essa vida. Mas nem me importo com isso.

    Estou totalmente arredio, calado frente à onipotência de qualquer descrição, de vago conceito, idéia tirada no nanquim, até de qualquer forma pretensiosa que diz possuir algum significado.

    Não é que pouco me importe, mas porque teria de dizer algo, mostrar a cara, tirar a máscara. Acho isso ruim. Se a pessoa não tem o que fazer,  expressar qualquer coisa vale nada. Se forçam, digo que pouco sei do que se trata.

    Tudo bem que parece uma violência, para obrigar, entende, a pessoa contar os fatos que mal sabe quais são. Meio bizarro, alegoria, fazenda, não sei. Não vou bem do corpo, do gosto, do desejo.

A gente quer um emprego, um trabalho que possa garantir uma sorte na vida. Mais ganhar algo do que perder. E agora isso de levantar a mão, erguer a carne da cadeira, sair do lugar, e para quê?

    E se não vou bem, a repetir fotografia, a liquidez estancada da agonia. E se é assim que estou por não agora estar comigo, preso ao umbigo. Morre em mim a junção de todas as verdades, destroçadas no sopro de almas caladas.

    Não passo bem, mal me movo, e o que mais. Deus não deixa. Ele me quer quieto, sabe. E eu tenho minha opinião que morre toda hora, acorda diferente, uma coisa de pensar que muda, que não tem lugar, não tem porto, não tem compasso, esquadro. De tudo depois, acho que é melhor me esconder. Agora nem abro a câmara quando alguém quer se pronunciar, para mim é indiferente. Fico com raiva, depois alegre, e enfim do jeito que estou, que é meio de saco-cheio de tudo. Sabe o que quero dizer? Mal tenho para falar e me pedem que me apresente, que me impressione na coisa. Todo mundo vê. Tiram sarro.

    Uma merda de falação. Ninguém conta coisa alguma, nem número. E se dorme de olhos abertos, as coisas políticas, aquela gente de risinho cretino vencendo, não sei quê. Ganham um cargo de ouriço para espetar as vontades. Marcam tudo. Já se sabe pela moda, pela estética, forma e jeito, as falas programadas de vendedores de seguros. Amor com divórcio garantido, prazeres ridículos, efêmeros, felicidades de shopping, um estado de coisa, o mal-estar geral que enfia agulha nos olhos e a gente dorme.

    O ranço miserável das certezas absolutas. O fim do arco íris o fim do horizonte, o tombo nas profundezas que é mais altura e lavar o carro no fim de semana enquanto a água não sobe na bolsa, e se pode acender a luz vez e outra, esse tomate quente que mal ilumina, e se vai ao cinema em casa, abre-se a tela e dá um troço na gente.

    Não sei. Não me sinto bem. As mesmas coisas têm tanta diferença. Tudo é tão igual que a igualdade é garantida, um jeito parecido de vez que pouco se percebe. E é o que parece ser diferente, no absurdo uniformizado a diferença atrai, tudo que está em volta, tudo ao entorno se faz outro.

    Ninguém vê que o bloco está organizado demais, que a festa tem um tempo, que a hora de acabar está no cronograma, que alguém invade o seu teclado, seu pensamento, seu tempo e que essa igualdade bisbilhoteira faz o que mais que seja: diferente.

    Outra coisa. E por aí que vou. Olhando de revés, descrente, desqualificado, amoral, imoral, incapaz, impossibilitado de mostrar a fuça e abrir a boca, quebrar sentimentos, racionalizar.

    Ando dentro da barrica, na barricada que espera que esse ambiente morra congelado nas formalidades burras, nas modalidades definidas, na escadinha das horas, uma coisa de cada vez conforme indicado.

    A vida é um formulário que nem precisa ser preenchido. Põe-se lá um número e tudo que nem onda retorna sobre o vazio que está cheio de si. Não me sinto bem.

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Comentarios

  1. Gostei. Algumas boas e cruas verdades. Também não me sinto bem sendo um boneco manipulado. Às vezes me dou conta e fujo.

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