Não me sinto bem
Ficar, permanecer, endurecer ali jogado feito um fardo existencial que me custa caro, ainda com um riso programado que me dilacera, vez e outra um riso, mas não é de rir. Um esforço muscular para mostrar os dentes para uma imagem.
Gritar o nome de um santo, de um deus, de alguém como um escudo à minha mais profunda ignorância que é a solidão sem-fim que começa e termina o tempo todo. Um ato de nada, um nada ativo, que é uma bóia, uma folha, objeto jogado num rio sujo que é essa vida. Mas nem me importo com isso.
Estou totalmente arredio, calado frente à onipotência de qualquer descrição, de vago conceito, idéia tirada no nanquim, até de qualquer forma pretensiosa que diz possuir algum significado.
Não é que pouco me importe, mas porque teria de dizer algo, mostrar a cara, tirar a máscara. Acho isso ruim. Se a pessoa não tem o que fazer, expressar qualquer coisa vale nada. Se forçam, digo que pouco sei do que se trata.
Tudo bem que parece uma violência, para obrigar, entende, a pessoa contar os fatos que mal sabe quais são. Meio bizarro, alegoria, fazenda, não sei. Não vou bem do corpo, do gosto, do desejo.
A gente quer um emprego, um trabalho que possa garantir uma sorte na vida. Mais ganhar algo do que perder. E agora isso de levantar a mão, erguer a carne da cadeira, sair do lugar, e para quê?
E se não vou bem, a repetir fotografia, a liquidez estancada da agonia. E se é assim que estou por não agora estar comigo, preso ao umbigo. Morre em mim a junção de todas as verdades, destroçadas no sopro de almas caladas.
Não passo bem, mal me movo, e o que mais. Deus não deixa. Ele me quer quieto, sabe. E eu tenho minha opinião que morre toda hora, acorda diferente, uma coisa de pensar que muda, que não tem lugar, não tem porto, não tem compasso, esquadro. De tudo depois, acho que é melhor me esconder. Agora nem abro a câmara quando alguém quer se pronunciar, para mim é indiferente. Fico com raiva, depois alegre, e enfim do jeito que estou, que é meio de saco-cheio de tudo. Sabe o que quero dizer? Mal tenho para falar e me pedem que me apresente, que me impressione na coisa. Todo mundo vê. Tiram sarro.
Uma merda de falação. Ninguém conta coisa alguma, nem número. E se dorme de olhos abertos, as coisas políticas, aquela gente de risinho cretino vencendo, não sei quê. Ganham um cargo de ouriço para espetar as vontades. Marcam tudo. Já se sabe pela moda, pela estética, forma e jeito, as falas programadas de vendedores de seguros. Amor com divórcio garantido, prazeres ridículos, efêmeros, felicidades de shopping, um estado de coisa, o mal-estar geral que enfia agulha nos olhos e a gente dorme.
O ranço miserável das certezas absolutas. O fim do arco íris o fim do horizonte, o tombo nas profundezas que é mais altura e lavar o carro no fim de semana enquanto a água não sobe na bolsa, e se pode acender a luz vez e outra, esse tomate quente que mal ilumina, e se vai ao cinema em casa, abre-se a tela e dá um troço na gente.
Não sei. Não me sinto bem. As mesmas coisas têm tanta diferença. Tudo é tão igual que a igualdade é garantida, um jeito parecido de vez que pouco se percebe. E é o que parece ser diferente, no absurdo uniformizado a diferença atrai, tudo que está em volta, tudo ao entorno se faz outro.
Ninguém vê que o bloco está organizado demais, que a festa tem um tempo, que a hora de acabar está no cronograma, que alguém invade o seu teclado, seu pensamento, seu tempo e que essa igualdade bisbilhoteira faz o que mais que seja: diferente.
Outra coisa. E por aí que vou. Olhando de revés, descrente, desqualificado, amoral, imoral, incapaz, impossibilitado de mostrar a fuça e abrir a boca, quebrar sentimentos, racionalizar.
Ando dentro da barrica, na barricada que espera que esse ambiente morra congelado nas formalidades burras, nas modalidades definidas, na escadinha das horas, uma coisa de cada vez conforme indicado.
A vida é um formulário que nem precisa ser preenchido. Põe-se lá um número e tudo que nem onda retorna sobre o vazio que está cheio de si. Não me sinto bem.
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Pedro Moreira Nt

Gostei. Algumas boas e cruas verdades. Também não me sinto bem sendo um boneco manipulado. Às vezes me dou conta e fujo.
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